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Queimadas

Todos os anos, de julho a agosto, o país enfrenta a temporada do fogo, principalmente na Amazônia, o que castiga quem mora na região, que fica sufocada com a fumaça. No entanto, este ano, a situação é diferente.

O Brasil vive uma seca nunca antes vista em sua história recente, e o fogo mais que dobrou em quase metade dos estados do país, espalhando a fumaça. No Sudeste, por exemplo, todos os estados mais do que dobraram os índices. No mês de agosto, o fogo atingiu 5,65 milhões de hectares no Brasil, quase metade de toda a área queimada no país desde janeiro, segundo dados do Monitor do Fogo, da plataforma Mapbiomas. Na comparação com agosto de 2023, o fogo consumiu 3,3 milhões a mais este ano, representando um salto de 149%.

Aproximadamente 70% da área queimada é de mata nativa, principalmente em formações campestres, que representaram um quarto de toda a vegetação queimada no Brasil nos oito primeiros meses deste ano. As pastagens lideram as áreas de uso agropecuário queimadas no período, com 2,4 milhões de hectares.

“A combinação de atividades humanas e condições climáticas desfavoráveis, como a seca, está intensificando a ocorrência de incêndios, especialmente em áreas de pastagem e vegetação nativa” alerta Ane Alencar, diretora de Ciências do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenadora do MapBiomas Fogo.

O pesquisador do Inpe, Luiz Aragão, especialista em análise de carbono na atmosfera e mudanças climáticas, explica que o país vive uma crise do fogo por dois pontos:

  • Seca histórica que ressecou o solo e a vegetação por um longo período e que se soma às altas temperaturas, deixando toda a vegetação no país vulnerável.
  • A cultura do uso do fogo na agricultura e na pecuária, alguns com autorização para isso. O problema é que, nas condições de seca, o incêndio perde o controle e atinge outras áreas. Para se ter uma noção, segundo os dados do Inpe, na Amazônia, apenas 15% de todo o fogo no país está sendo usado para desmatamento.

São Paulo, Pará, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são os estados com o maior registro de queimadas até o momento. A Confederação Nacional dos Municípios (CNM) estima que 10 milhões de pessoas foram afetadas diretamente pelos incêndios florestais. Os dados tomam como base apenas os dados das prefeituras que decretaram emergência. Ao todo, são 531 municípios nessa situação por causa dos incêndios. Segundo essa estimativa da CNM, os estados do Acre, Tocantins, Rondônia e Mato Grosso têm quase o território completo em estado de emergência.

Consequencias

Algumas regiões do Brasil podem registrar o fenômeno da chuva preta, alerta o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A ocorrência é causada pela mistura de partículas de fumaça e poluentes na atmosfera com gotas de chuva, dando à água uma coloração escura.

O fenômeno é possível devido ao avanço de uma frente fria e à presença de fuligem dos incêndios florestais, afetando principalmente o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, com possível expansão para o sul do Mato Grosso do Sul e o Sudeste.

Em São Paulo, por exemplo, onde o céu está coberto de fumaça há quase uma semana, o fogo aumentou mais de 400%. São 6,3 mil focos de fogo esse ano (entre 1º de janeiro e 10 setembro), contra 1,2 mil no ano passado. Isso está sufocando o estado com fumaça e derrubando a qualidade do ar e a umidade.

A natureza levou milhares de anos para formar os biomas, as matas nativas que queimaram e ainda estão queimando no Brasil. Trazer de volta o verde para as áreas devastadas será um desafio gigantesco e vital também.

Segundo o presidente do Ibama, além de 3,7 mil brigadistas, há 700 fiscais que estão trabalhando em investigações para localizar e punir culpados por incêndios criminosos. Ele lembra que o uso do fogo está proibido no país; disse que as áreas queimadas deverão ser protegidas.

Os eventos climáticos extremos eram previstos para algumas décadas adiante, mas pouco foi feito pelo meio ambiente e as mudanças climáticas chegaram antes do esperado por cientistas como Carlos Nobre. Ele diz que será preciso um enorme esforço para zerar o uso do fogo na agricultura, eliminar a emissão dos gases do efeito estufa e tocar um grande processo de restauração.

O que os especialistas defendem é que era necessário uma medida de prevenção, antes que o fogo avançasse como proibir o uso de queimadas, aumentar brigadistas e cobrar os estados sobre a fiscalização.

Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, destaca que, apesar da existência de leis e penalidades, como multas e prisões, sua aplicação é deficiente, gerando uma sensação de impunidade.